domingo, 16 de dezembro de 2012

Juan José Millás : Um canhão pelo cu

Este artigo incendiou a Espanha. Publicado a 14 de Agosto na secção de cultura de El Pais, em poucos dias tornou-se a peça mais lida de sempre naquele jornal e além disso teve milhares de acessos no Facebook. O autor é um escritor espanhol comprometido com os anseios do seu povo. Leia também a sua entrevista "Tornámo-nos uma colónia da Alemanha" em Dinheiro Vivo.

Se percebemos bem – e não é fácil, porque somos um bocado tontos –, a economia financeira está para a economia real assim como o senhor feudal está para o servo, como o amo está para o escravo, como a metrópole está para a colónia, como capitalista manchesteriano está para o operário superexplorado. A economia financeira é o inimigo de classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com corpo de uma criança num bordel asiático. Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de a teres semeado. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, ainda que vás à merda se baixar. Se o baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter o que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que tenhas caído, ainda que não haja nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira.

Para exemplificar, estamos a falar da colheita de um indivíduo, mas o que o porco filho da puta geralmente compra é um país inteiro e ao preço da chuva, um país com todos os cidadãos dentro, digamos que com gente real que se levanta realmente às seis da manhã e se deita à meia-noite. Um país que, da perspectiva do terrorista financeiro, não é mais do que um tabuleiro de jogos no qual um conjunto de bonecos Playmobil andam de um lado para o outro como se movem os peões no Jogo da Glória.

A primeira operação do terrorista financeiro sobre a sua vítima é a do terrorista convencional: o tiro na nuca. Ou seja, retira-lhe todo o carácter de pessoa, coisifica-a. Uma vez convertida em coisa, pouco importa se tem filhos ou pais, se acordou com febre, se está a divorciar-se ou se não dormiu porque está a preparar-se para uma competição. Nada disso conta para a economia financeira ou para o terrorista económico que acaba de pôr o dedo sobre o mapa, sobre um país, este no caso, pouco importa, e diz "compro" ou diz "vendo" com a impunidade com que aquele que joga Monopólio compra ou vende propriedades imobiliárias a fingir.

Quando o terrorista financeiro compra ou vende, converte em irreal o trabalho genuíno de milhares ou milhões de pessoas que antes de irem para a labuta deixaram no infantário público, onde ainda existem, os seus filhos, também eles produto de consumo desse exército de cabrões protegidos pelos governos de meio mundo mas superprotegidos, é claro, por essa coisa a que temos chamado de Europa ou União Europeia ou, mais simplesmente, Alemanha, para cujos cofres são desviados neste preciso momento, enquanto lê estas linhas, milhares de milhões de euros que estavam nos nossos cofres.

E não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo, desviam-se num movimento especulativo promovido por Merkel com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro. Tu e eu, com a nossa febre, os nossos filhos sem infantário ou sem trabalho, o nosso pai doente e sem ajudas, com os nossos sofrimentos morais ou as nossas alegrias sentimentais, tu e eu já fomos coisificados por Draghi, por Lagarde, por Merkel, já não temos as qualidades humanas que nos tornam dignos da empatia dos nossos semelhantes. Somos agora mera mercadoria que pode ser expulsa do lar de idosos, do hospital, da escola pública, tornámo-nos algo desprezível, como esse pobre tipo a quem o terrorista, por antonomásia, está prestes a dar um tiro na nuca em nome de Deus ou da pátria.

A ti e a mim, estão a pôr nos carris do comboio uma bomba diária chamada prémio de risco, por exemplo, ou juros a sete anos, em nome da economia financeira. Avançamos com rupturas diárias, massacres diários, e há autores materiais desses atentados e responsáveis intelectuais dessas acções terroristas que passam impunes entre outras razões porque os terroristas vão a eleições e até ganham, e porque há atrás deles importantes grupos mediáticos que legitimam os movimentos especulativos de que somos vítimas.

A economia financeira, se começamos a perceber, significa que quem te comprou aquela colheita inexistente era um cabrão com os documentos certos. Terias tu liberdade para não vender? De forma alguma. Tê-la-ia comprado ao teu vizinho ou ao vizinho deste. A actividade principal da economia financeira consiste em alterar o preço das coisas, crime proibido quando acontece em pequena escala, mas encorajado pelas autoridades quando os valores são tamanhos que transbordam dos gráficos.

Aqui alteram o preço das nossas vidas a cada dia sem que ninguém resolva o problema, pior, enviando as forças da ordem contra quem tenta fazê-lo. E, por Deus, as forças da ordem empenham-se a fundo na protecção desse filho da puta que te vendeu, por meio de um roubo autorizado, um produto financeiro, ou seja, um objecto irreal no qual tu investiste as poupanças reais de toda a tua vida. O grande porco vendeu-lhe fumaça com o amparo das leis do Estado que são as leis da economia financeira, já que estão ao seu serviço.

Na economia real, para que uma alface nasça, há que semeá-la e cuidar dela e dar-lhe o tempo necessário para se desenvolver. Depois, há que a colher, claro, e embalar e distribuir e facturar a 30, 60 ou 90 dias. Uma quantidade imensa de tempo e de energia para obter uns cêntimos que terás de dividir com o Estado, através dos impostos, para pagar os serviços comuns que agora nos são retirados porque a economia financeira tropeçou e há que tirá-la do buraco. A economia financeira não se contenta com a mais-valia do capitalismo clássico, precisa também do nosso sangue e está nele, por isso brinca com a nossa saúde pública e com a nossa educação e com a nossa justiça da mesma forma que um terrorista doentio, passe a redundância, brinca enfiando o cano da sua pistola no rabo do seu sequestrado.

Há já quatro anos que nos metem esse cano pelo rabo. E com a cumplicidade dos nossos. O original encontra-se em http://cultura.elpais.com/cultura/2012/08/13/actualidad/1344875187_015708.html
e a tradução em http://www.dinheirovivo.pt/Economia/Artigo/CIECO056741.html?page=0
(foram efectuadas pequenas alterações)

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Alternatives to Privatization : Public Options for Essential Services in the Global South

http://www.hsrcpress.ac.za/product.php?productid=2287

Critics of privatisation are often told they present no alternatives. This book takes up that challenge, proposing conceptual models for what constitutes an ‘alternative to privatisation’ and analyses what makes them successful (or not), backed up by empirical data on creative public service initiatives in over 40 countries in the Global South. This groundbreaking study provides a robust platform for comparisons across regions and sectors, with a focus on health, water and electricity. Alternatives to Privatisation is a compelling study and has been written by leading academics, practitioners and activists in the field.

Here is a book that many have been waiting for: an empirical, theoretical and normative case for defending and innovating ‘the public’. In resisting neoliberalism we need to show that there are viable alternatives to the privatisation and commercialisation of essential services. This book does not romanticise the state, or community, and illustrates that ‘the public’ comes in many forms and guises; both good and bad. The public is a terrain on which people must struggle if we are to realise our commitments to social, cultural and economic rights.

David McCoy - University College London and People’s Health Movement

At a time that neoliberal solutions to social services have lost credibility, this book argues convincingly that alternatives to privatisation exist and are often more effective than private enterprises. Drawing on examples in Africa, Asia, and Latin America, this book drives home the lesson that broad-based consultation and participation in service delivery is an essential ingredient of success.

Walden Bello - Author, academic, and political analyst

domingo, 21 de outubro de 2012

“Men, it has been well said, think in herds; it will be seen that they go mad in herds, while they only recover their senses slowly, one by one.”
- Charles MacKay
"We hang the petty thieves and appoint the great ones to public office"
- Aesop

sábado, 20 de outubro de 2012

Green Illusions : The Dirty Secrets of Clean Energy and the Future of Environmentalism

http://www.greenillusions.org/description/

We don’t have an energy crisis. We have a consumption crisis. And this book, which takes aim at cherished assumptions regarding energy, offers refreshingly straight talk about what’s wrong with the way we think and talk about the problem. Though we generally believe we can solve environmental problems with more energy—more solar cells, wind turbines, and biofuels—alternative technologies come with their own side effects and limitations. How, for instance, do solar cells cause harm? Why can’t engineers solve wind power’s biggest obstacle? Why won’t contraception solve the problem of overpopulation, lying at the heart of our concerns about energy, and what will?

This practical, environmentally informed, and lucid book persuasively argues for a change of perspective. If consumption is the problem, as Ozzie Zehner suggests, then we need to shift our focus away from suspect alternative energies and toward improving social and political fundamentals: walkable communities, improved consumption, enlightened governance, and, most notably, women’s rights. The dozens of first steps he offers are surprisingly straightforward. For instance, he introduces a simple sticker that promises a greater impact than all of the nation’s solar cells. He uncovers why carbon taxes won’t solve our energy challenges (and presents two taxes that could). Finally, he explores how future environmentalists will focus on similarly fresh alternatives that are affordable, clean, and can actually improve wellbeing.
"We are all capable of believing things which we know to be untrue, and then, when we are finally proved wrong, impudently twisting the facts so as to show that we were right. Intellectually, it is possible to carry on this process for an indefinite time: the only check on it is that sooner or later a false belief bumps up against solid reality, usually on a battlefield."
- George Orwell (1946)

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Dennis Gilbert : The American Class Structure in an Age of Growing Inequality - Eighth Edition

http://www.sagepub.com/books/Book234285

In this Eighth Edition of his acclaimed and thought-provoking text, author Dennis Gilbert explores historical and contemporary empirical studies of class inequality in America through the lens of nine key variables. Focusing on the socioeconomic core of the American class system, Gilbert describes a consistent pattern of growing inequality in the United States since the early 1970s. In his search for the answer to why class disparities continue to increase, Gilbert examines changes in the economy, family life, and politics, drawing on vivid first-person accounts to illustrate the human emotion wrapped up in class issues.

Dennis Gilbert is a professor of Sociology at Hamilton College His primary research interests are Latin American and American class system. Gilbert is the author of The American Class Structure in an Age of Growing Inequality (Sage, 2008), Mexico's Middle Class in the Neoliberal Era (University of Arizona Press, 2007), Sandinistas: the Party and the Revolution (Blackwell, 1988), and La Oligarquía Peruana: Historia de Tres familias (Horizonte, 1982). In 1990, he was research director to the successful congressional campaign of Bernard Sanders (Independent-VT) and later served as legislative assistant in Representative Sanders' congressional office. At Hamilton, Gilbert teaches a course on public opinion polling. In collaboration with the polling firm Zogby International, Gilbert and his students have conducted a series of widely reported national surveys, most examining the views of high school students, on such topics as gun control, gay rights, abortion, Muslims in America and patriotism.